Júlia e André iam em direção ao parque que estava na cidade naquele mês. Eram amigos desde que se lembravam, suas mães eram amigas e vizinhas, mas era fato notável para qualquer um que havia algo a mais.
Logo que entraram pelos grandes portões do parque, viram uma faixa grande que dizia:
“Madame Zorah: conto segredos seus que nem você sabe.”
Foi quase combinado, ao lerem a faixa Júlia e André olharam um para o outro e começaram a rir.
Embora estivesse rindo, Júlia sentia em seu coração que algo iria mudar naquela noite. Passaram na porta da tenda e ouviram uma voz lá de dentro:
- Júlia, não tem algo que te perturba?- E Júlia deu um salto, visivelmente assustada.
-Jú, eu acho que ela tá te chamando-André disse com a voz trêmula.
-Para André. Não brinca assim- Disse Júlia, pegando no braço do amigo e caminhando pra dentro da tenda.
- Quê que você tá fazendo? Você vai mesmo entrar aí sua doida?- disse André sussurrando.
-Tá com medo André? Não precisa ficar. Madame Zorah só faz o bem- Disse uma mulher vestida de vermelho, de longos cabelos negros, que aparentava ter uns 40 anos, sentada a uma mesa com toalha vermelha com detalhes dourados que tinha uma bola de cristal onde ela passava as mãos simultaneamente.
- É... A senhora nos conhece? De onde?-Júlia perguntou de pé, cruzando os braços em frente à mulher.
-Madame Zorah sabe de tudo, minha querida- disse a mulher quarentona, soltando um leve sorriso.
- Aham... Sei. Tudo, tipo o quê?-Disse Júlia se sentando. Enquanto André observava tudo de longe.
-Tipo, que você quebrou o braço quando tinha nove anos, andando de bicicleta-Madame Zorah disse levantando as sobrancelhas.
-Ah... E o quê mais você sabe da minha vida, Madame?- Disse Júlia em um tom curioso.
-Madame Zorah sabe tudo o que quer saber e o que você também não sabe minha cara.
-Exemplifique, por favor- disse Júlia.
-Você o André se conhecem desde sempre. São muito próximos, não irmãos. Vai, além disso, são melhores amigos um do outro...
- É-Júlia e André disseram juntos.
-Não terminei. Muito embora, a relação de vocês vá além... - disse a cartomante em um tom sugestivo.
-Sim, senhora... Quero dizer... André e eu somos muito próximos sim, quase irmãos.
-Não, meu bem. Quando digo além, falo de destino, amor, almas gêmeas- disse Zorah sorrindo.
-Como assim?- Júlia e André disseram juntos novamente.
-Ah, vocês não se declararam ainda? Uh! Desculpe! Estraguei sua surpresa, André? Montanha russa era uma boa pedida-disse Zorah piscando para André. Júlia rapidamente olhou para trás e viu o amigo totalmente sem graça olhando para baixo, com as mãos nos bolsos- Ele tinha uma aliança, sabia? Muito fofo!
-Não, eu não sabia!-Júlia virou-se para trás- André, você conhece essa mulher?
-Claro que não, Júlia! De onde eu a conheceria?
-Ah! Sei lá!-e Júlia saiu da tenda correndo.
- Quem é você?- André perguntou a Zorah e saiu correndo atrás de Júlia.
-A força de seus pensamentos, querido. A força de seus pensamentos- Madame Zorah disse quase num sussurro.
-Jú! Espera!- André gritou alcançando a amiga.
-O que foi isso?-Júlia disse visivelmente abalada, abraçando o amigo.
-Não sei- André disse envolvendo-a em seus braços
Depois de alguns minutos abraçados em silêncio Júlia perguntou:
-André, é verdade o que ela disse?- disse Júlia olhando pra André com a cabeça encostada em seu peito.
-É- disse André soltando-se da amiga e olhando pra baixo- Júlia levantou o rosto de André pelo queixo fazendo com que os olhos dele se encontrassem com os dela.
-Só pra você saber, eu ia adorar. Não precisa ficar sem graça-Júlia disse sorrindo.André ajoelhou-se em frente à Júlia, tirou do bolso uma caixinha vermelha, abriu-a e disse:
-Não foi na montanha russa, mas vale? Júlia Laranjeira quer ser minha namorada?
-Ah! André- Júlia abaixou-se até André e o beijou.
Semanas depois Júlia e André foram atrás de madame Zorah, para agradecê-la. Ao chegarem ao parque não viram nem a faixa nem a tenda de Madame Zorah. Resolveram perguntar ao segurança.
-Com licença, senhor. O senhor poderia me informar onde está Madame Zorah?- André perguntou.
-Madame Zorah? Tem ninguém neste parque com esse nome não, garoto.
-Como não? Viemos aqui há duas semanas e ela estava.
-Nunca existiu nenhuma madame Zorah aqui. Deve estar no parque errado, garoto. Com licença.
Um sopro forte de vento passou e Júlia se agarrou a André e os dois foram embora.
Às vezes, queremos tanto as coisas que quando elas acontecem atribuímos os méritos a outras coisas, outras pessoas. Sem querer acreditar que é só destino dizendo sim aos nossos desejos.
Ingrid Marinho